COMO A VALE COMPROU OS POLÍTICOS BRASILEIROS

Além da enorme perda humana - já com 110 mortes e 238 desaparecidos -, o colapso da barragem de Brumadinho provocou enorme indignação no Brasil, em vista um incidente similar que aconteceu há apenas três anos em Mariana. E mais uma vez, a empresa responsável pela tragédia e danos ambientais é a Vale, uma das maiores empresas do Brasil, e a maior produtora mundial de minério de ferro e níquel. 

Por que não foram aprendidas lições desde 2015?  Parte do problema provém do fato que a Vale levou menos de um ano para recuperar seu valor depois de Mariana, já que os investidores estavam mais preocupados com os preços das commodities do que com a catástrofe ambiental. Mas uma parte maior da questão diz respeito a como as autoridades não responsabilizaram a Vale pelos seus crimes. 

A maioria das multas impostas após a tragédia de Mariana de 2015 ainda não foi paga. E o Congresso do Estado de Minas Gerais derrubou uma lei que reforçaria as regulamentações sobre as atividades de mineração. Para descobrir  o porque de tudo isso, é importante dar uma olhada no comportamento da Vale durante as pré-campanhas eleitorais, onde a mesma financiou muitas destas. 

O jornal Estadão reuniu dados de tribunais eleitorais que mostram que 257 políticos eleitos em 2014 - quando as doações de empresas ainda eram permitidas - receberam apoio financeiro da Vale. Esses funcionários estavam no cargo até 31 de janeiro de 2019. Ao levar em conta aqueles que não ganharam assentos, os números se tornam ainda mais impressionantes. Além disso, os três candidatos presidenciais mais votados em 2014 receberam dinheiro da empresa. No total, as doações totalizaram R$ 82,2 milhões.

Apenas o grupo de frigoríficos JBS aplicou quantias comparáveis ​​de dinheiro em políticos. Considerando o relacionamento da JBS com as elites políticas, não é um fato favorável ter o seu nome relacionado com essa empresa. Os dois principais acionistas da empresa e todo o seu nível superior de executivos admitiram anos de subornos a políticos em troca de favores. Wesley e Joesley Batista, antes conhecidos como "reis da carne bovina do Brasil", passaram um tempo na prisão por não cumprir o acordo judicial que buscava detalhar os meandros da corrupção em nível federal. Eles também são investigados por insider trading, já que fizeram operações de câmbio pouco antes de o conteúdo de seu depoimento vazar para a imprensa e causar estragos nos mercados. 

Obviamente, as doações da Vale são mais volumosas em estados com mais reservas de mineração, como Minas Gerais (18% de todas as doações políticas) e Pará (9%). Os dados eleitorais de 2014 também mostram que a mineradora não tem viés de ideologia - ajudando candidatos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Partido Social Liberal (PSL). Candidatos de 27 partidos receberam uma certa quantia de dinheiro de empresas de mineração.

A taxa de candidatos apoiados pela Vale entre os membros eleitos do Congresso é impressionante. Dois terços dos membros do Congresso de Minas Gerais receberam dinheiro da empresa. Em Sergipe e no Pará, metade dos representantes eleitos foi apoiada com dinheiro da Vale. No nível estadual, a taxa é semelhante. Em junho, um projeto de lei reforçando os controles sobre as atividades de mineração foi rejeitado em um comitê especial por 3 votos a 1. Dos três legisladores que eram contra regulamentações mais rígidas, dois receberam dinheiro da Vale em 2014. “Dinheiro e influência são instrumentos poderosos na política, mesmo que legalmente aceitos ”, escreveu Wagner Pralon em um estudo publicado pelo Instituto de Economia Aplicada do Brasil.

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