COMO É A DESSALINAZAÇÃO DA ÁGUA EM ISRAEL?

As mais diversas polêmicas e mentiras surgiram quando Bolsonaro anunciou a parceria entre Brasil e Israel para a dessalinização da água do mar. A oposição disse que não passava de puro lobby com empresas de Israel porque o Brasil já possui projetos de dessalinização da água do mar no nordeste. Disseram, também, que o projeto seria de cara implantação e que Bolsonaro estava ignorando melhores opções para a crise hídrica que assola os nordestinos.

Diante deste cenário fomentado pela ignorância e mal caráter de alguns, este vídeo propõe explicar e desmistificar a dessalinização da água em Israel.

O exato método empregado por Israel para a dessalinização da água do mar não está disponível para o público, mas algumas inferências podem ser feitas com base em tecnologias já conhecidas.

A base tecnológica utilizada pelas plantas israelenses é a Osmose Reversa, o principal processo de dessalinização em termos de capacidade instalada e crescimento. A Osmose Reversa faz uso de membranas semi-permeáveis ​​e pressão aplicada no lado da alimentação das membranas para induzir, preferencialmente, a permeação de água através das estruturas enquanto as mesmas rejeitam os sais. Os sistemas de membrana de planta de osmose reversa normalmente usam menos energia do que os processos de dessalinização térmica. Os processos de dessalinização são conduzidos por qualquer um dos tipos de energia primária (por exemplo, destilação) ou elétrica, que é o caso da Osmose Reversa. O custo de energia nos processos de dessalinização varia consideravelmente dependendo da salinidade da água, tamanho da planta e tipo de processo. Atualmente, o custo da dessalinização de água do mar, por exemplo, é mais alto do que as fontes de água tradicionais, mas espera-se que os custos continuem a diminuir com as melhorias tecnológicas que incluem, mas não se limitam a, eficiência aprimorada, melhorias na operação e otimização da planta, pré-tratamento mais efetivo e fontes de energia de menor custo.

A osmose reversa utiliza uma membrana composta de filme fino, que compreende uma película fina de poliamida ultrafina e aromática. Este filme de poliamida fornece à membrana suas propriedades de transporte, enquanto o restante da membrana composta de filme fino fornece suporte mecânico. O filme de poliamida é um polímero denso e livre de vazios com uma alta área superficial, permitindo assim sua alta permeabilidade à água.

O processo de osmose reversa requer manutenção constante, visto que vários fatores interferem na sua eficiência, sendo eles a contaminação iônica de cálcio, magnésio e outros elementos; carbono orgânico dissolvido; bactérias; vírus; colóides e partículas insolúveis e bioincrustação. Em casos extremos, as membranas de Osmose Reversa são destruídas. Para mitigar os danos, vários estágios de pré-tratamento são introduzidos. Os inibidores de incrustações são formados por ácidos e outros agentes como os polímeros orgânicos Poliacrilamida e Ácido Polimaleico, Fosfonatos e Polifosfatos. Os inibidores da incrustação são os biocidas, como o cloro, ozônio, sódio ou hipoclorito de cálcio. Em intervalos regulares, dependendo da contaminação da membrana; condições de flutuação da água do mar; ou quando solicitado por processos de monitoramento, as membranas precisam ser limpas. A lavagem é feita com inibidores em uma solução de água doce com o sistema em funcionamento parcial ou totalmente interditado. Este procedimento é ambientalmente arriscado, uma vez que a água contaminada é desviada para o oceano sem tratamento. Os habitats marinhos sensíveis podem, nesse cenário, sofrer danos irreversíveis.

A história diz que a primeira usina de dessalinização da água em Israel abriu em 1997 na cidade de Eliat. Em 2002, sob o impacto da seca, o governo aprovou a construção de grandes usinas de dessalinização da água na costa mediterrânea. Essas instalações pretendiam suprir 305 milhões de metros cúbicos de água por ano até o ano de 2010 e 500 milhões de metros cúbicos por ano de água tratada até o ano de 2015. Até a metade de 2008, duas usinas com capacidade de 130 milhões de metros cúbicos por ano estavam em plena operação. Em paralelo a construção das estações de dessalinização, o governo local introduziu projetos visando a redução do consumo de água em residências em pelo menos 10 por cento. Em 2012, a Planta de Dessalinização de Ashkelon tinha a capacidade de converter de 15.000 a 16.000 metros cúbicos de água do oceano por hora, o que compreendia 15% da demanda por água de Israel.

Em Julho de 2007, o Comissário de Água Uri Shani alertou a respeito de um declínio na preciptação de água da chuva, um fato que prometia exacerbar a crise hídrica de Israel. Disse o então Comissário que "a queda do volume de água da chuva é causada pela contaminação atmosférica, fato este que afeta a composição das nuvens. Todos os anos registramos uma menor entrada de água no Lago Kinneret no inverno. Outro fator envolvido nesse fenômeno é a contaminação do aquífero costeiro, uma vez que reduz a quantidade de água que pode ser captada."

Em 2007, Mekerot inaugurou a sua avançada Planta Central de Filtração em Eshkol. Com custo de aproximadamente 100 milhões de dólares, a planta possuí uma capacidade de filtração que excede 500 milhões de metros cúbicos de água por ano. É a maior planta da sua categoria em Israel e umas das maiores de todo o mundo. Em 2008, Mekorot anunciou a instalação de uma quinta expansão da estação com o intuito de suprir mais 150 milhões de metros cúbicos de água anualmente para Jerusalém. Em março de 2008, o Ministro Nacional de Infraestruturas, Benjamin Ben-Eliezer, e o chefe da Autoridade da Água, Uri Shani, começaram a explorar opções para novas estações de tratamento de águas residuais e reservatórios. Outra alternativa considerada foram os biorreatores de membrana, que apesar de serem mais caros, eram menos pesados. Em 2006, o Conselho Regional de Águas Residuais Dan foi criticado pelo seu plano de incinerar o lodo como método substituto ao despejo direto no oceano. Críticos afirmavam que o lodo poderia ser melhor utilizado como fertilizante na agricultura.

Em julho de 2008, no meio de outra seca, o Knesset estabeleceu uma comissão estadual de inquérito sobre o lento progresso da dessalinização. A capacidade de dessalinização foi inferior a um terço do valor definido pelo gabinete, principalmente devido a uma desaceleração nas licitações após alguns anos de chuvas relativamente altas. As atividades planejadas de economia de água foram completamente interrompidas e foram retomadas apenas em 2006, mas em um ritmo lento. No entanto, uma vigorosa campanha de economia de água foi iniciada com vídeos de famosos israelenses, como o cantor Ninet Tayeb, o modelo Bar Refaeli e o ator Moshe Ivgy. A campanha resultou na redução do uso de água em mais de 10%, economizando a construção de uma usina de dessalinização. Em seu relatório final, em março de 2010, a comissão de inquérito, chefiada pelo ex-juiz Dan Bein, concluiu que as mudanças eram necessárias na Lei das Águas de 1959. O Ministério das Finanças foi acusado de ter adiado os planos de dessalinização argumentando que a conservação e a reutilização de águas residuais deveriam ter sido implementadas com maior prioridade. Apenas anos depois, o ministério endossou a dessalinização em grande escala. Diz-se que a Autoridade da Água foi lenta, intransparente e que não conseguiu coordenar suas relações com os vários ministérios. O ministro da Infraestrutura, Uzi Landau, endossou o relatório e anunciou que seu Ministério apresentaria um projeto de lei para reduzir os poderes da Autoridade da Água e colocá-la mais firmemente sob o controle de seu Ministério.

Atualmente, o custo da água tratada em Israel é de 58 centavos de dólares.

Diante desse cenário, a tecnologia de Israel de dessalinização da água, umas das mais avançadas do mundo, pode se tornar uma solução aplicável ao Nordeste. Criticar o presidente Jair Bolsonaro por negligenciar os pequenos projetos já existentes na região, projetos estes que não conseguem nem sustentar uma pequena comunidade, é um ato praticado por pessoas que não conhecem os problemas do nordeste brasileiro e nem a tecnologia israelense. Através de uma aplicação eficaz, a dessalinização da água pode se tornar um método eficiente para a independência do povo nordestino.


Fontes:

http://www.emwis-il.org/EN/Water_context/context_12.htm#Desalination

http://www.ibtimes.com/water-sea-risks-and-rewards-israels-huge-bet-desalination-723429

http://www.haaretz.com/hasen/spages/877283.html

http://www.mekorot.co.il/Eng/Mekorot/Pages/MessagefromtheChairman.aspx

http://www.haaretz.com/hasen/spages/972216.html

http://www.zalul.org/en/artical100.asp

http://www.haaretz.com/hasen/spages/1006376.html

http://www.timesofisrael.com/how-israel-beat-the-drought/

http://www.jpost.com/Israel/Article.aspx?id=171733

http://www.globalwaterintel.com/archive/11/4/general/report-reveals-israels-crisis-of-confidence.html

http://www.jpost.com/Israel/Article.aspx?id=171842

https://doi.org/10.1016%2Fj.desal.2006.12.009

https://doi.org/10.1063%2FPT.3.2828

https://doi.org/10.1073%2Fpnas.1804708115


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